Loulé: do Barrocal à Serra: sentir a
Tradição, viver a Realidade
Após nos juntarmos logo pela manhã junto à
igreja matriz, no centro da aldeia, a Junta de
freguesia de Querença recebeu os associados e
amigos da Aldraba (primeira imagem) com um
gostoso pão de limão e de nozes e licores de
alfarroba e poejo. Manuel Viegas, o autarca
local e Bruno, o seu jovem companheiro de
autarquia foram inexcedíveis, guiando o numeroso
grupo de visitantes pelo património edificado e
natural de Querença (segunda e terceira
fotografia).
O almoço (jantar de feijão) decorreu num
simpático restaurante de características
populares, após o qual se agradeceu a recepção,
tendo a Aldraba bem frisado como Querença sabe
receber bem.
Todo o grupo saboreou o prazer de descobrir
uma terra mágica, repleta de aromas e de frutos
(Da quarta fotografia à sétima), que espreitam
até ao esplendor da Fonte Benémola, sítio
classificado da Rede Natura (oitava imagem). Já
no
final da tarde, na Casa do Povo, acordeonistas,
artesãos e Filipa Faísca e as suas irmãs
partilharam sabedorias.
Querença tem um património precioso: as
pessoas. Porém, a desertificação deste interior,
tem números preocupantes: por cada 20 adultos
que morrem, nascem 2 crianças. Manuel Viegas,
aposta no associativismo, na dinamização das
artes tradicionais – a Aldraba participou numa
entrega de diplomas a formandos de um curso de
artesanato, onde participaram sobretudo
senhoras, umas idosas, outras jovens – , no
turismo que traz gente interessada em participar
com a sua presença no desenvolvimento, passeando
na natureza, comprando produtos da terra,
consumindo refeições e alojamentos com a marca
de Querença.
Querença é um nome que significa esperança e
força de viver do seu povo, que não baixa os
braços e sonha com um futuro construído por
todos. Foi importante falar com algumas destas
pessoas e perceber que pela sua terra fazem o
melhor: receberam-nos com os seus petiscos, os
seus doces, a sua tranquilidade. Vale a pena
conhecer uma terra com horizontes tão bonitos,
com um ar tão sadio e pessoas tão hospitaleiras.
A Aldraba foi conhecer este lugar luminoso do
concelho de Loulé, em pleno barrocal, com a
serra a dois passos. E dá aqui a sua
recomendação para uma visita atenta.
O segundo dia – A história, os paladares,
Cortelha e a etnografia contra a desertificação
Com a delicadeza e
profissionalismo de Ricardina Inácio, o segundo
dia do VII Encontro da Aldraba, começou com uma
interessante visita ao Museu de Arqueologia de
Loulé, localizado na Alcaidaria do Castelo, onde
está simultaneamente instalado o Arquivo
Histórico da Câmara
Municipal
de Loulé e o Núcleo da Cozinha Algarvia.
Percorreu-se o tempo da história, entre salas
abobadadas de tijolos ancestrais, numa mostra de
artefactos que vêm da pré-história, às épocas
romana, muçulmana, medieval cristã e até aos
tempos modernos.
Foi possível partilhar a mesa
de pedra, onde António Aleixo compôs as suas
quadras e nos legou a sua sabedoria. Entre
milhares de páginas centenárias dos Diários do
Governo e outros volumes não menos importantes
que constituem o acervo do Arquivo Histórico.
Visitou-se depois o Núcleo
dos Frutos Secos, onde Conceição Amador, autora
de magníficose “saborosos” livros sobre doçaria
com frutos secos (figo, amêndoa e alfarroba) nos
apresentou uma tábua de doçaria. De provar e
chorar por mais.
Com a doçura da sua
personalidade explicou (com a passagem de um
vídeo) como se faz esta doçaria, especialmente
aquela protagonizada pela alfarroba. Conceição
Amador é um património, pela sua sabedoria e
pela partilha, nomeadamente dando formação, para
que o saber-fazer tradicional não se perca.
O almoço foi na Casa dos
Presuntos, já bem dentro da Serra do Caldeirão,
na Cortelha, onde os quadros da Sandra e as
iguarias (javali no forno, ensopado de borrego e
cozido de grão) foram saboreadas com prazer, num
espaço de convivência e fruição gastronómica que
merece visita demorada.
Cortelha é uma aldeia da
Serra do Caldeirão, freguesia de Salir, do
concelho de Loulé, que a Aldraba quis conhecer
melhor, tentando perceber melhor a realidade do
interior algarvio.
E fomos brindados com uma
recepção inesquecível, nas instalações da
Associação dos Amigos da Cortelha (famosos
também pela realização de provas importantes em
motocross), e assistindo à excelente actuação do
Grupo Etnográfico da Serra do Caldeirão, ideia
concretizada há 3 anos pelos jovens André e
Márcio.
Este último foi o anfitrião,
que elucidou os visitantes acerca do historial
do Grupo e apresentou as diversas danças de um
repertório muito interessante, bem dançado, com
a jovialidade e o respeito pelas formas
tradicionais de dança popular que encantou todos
os presentes.
Manuel Sobral Bastos,
habituado a ver muitos festivais de folclore em
Santarém disse ao jovem dirigente do Grupo
Etnográfico da Serra do Caldeirão que há muito
tempo não assistia a um espectáculo de tanta
qualidade, executado um tão elevado número de
participantes jovens.
A direcção da Aldraba depois
de um corridinho, em que foram desafiados a
dançar, exprimiu a gratidão dos forasteiros,
afirmando que um grande tesouro patrimonial da
Cortelha é este grupo de jovens que não quer
deixar cair no esquecimento os ensinamentos dos
mais velhos, para quem o Grupo é uma terapia,
pois no público havia várias senhoras e senhores
de idade avançada, que se divertiam com as
danças dos seus netos e filhos. Acentuou-se o
facto desta colectividade ser um pólo de
desenvolvimento local que dignifica a Região e o
País. A Aldraba deixou uma forte mensagem de
estímulo, fortalecendo a continuidade de tão
belo trabalho de interacção inter-geracional e
comunitária. Márcio Rodrigues, agradecendo a
simpática presença dos visitantes, ofereceu em
nome do Grupo várias lembranças, nomeadamente um
lindíssimo moinho de cortiça.
De realçar que Manuel Viegas,
o presidente da JF de Querença também acompanhou
a Aldraba. Convidado a intervir, durante a
cerimónia de boas vindas, sublinhou o quanto é
injusto fechar escolas no interior, mesmo que
apenas haja duas crianças (um menino e uma
menina dançam no Grupo Etnográfico) quando numa
povoação onde tantos jovens se juntam para
realizar tão bela obra, faltam instalações para
que os saberes tradicionais sejam partilhados
entre gerações. Perante a assistência, denunciou
o abandono e a desertificação do interior, com o
fecho de escolas, com o encerramento de centros
de saúde, abandonando as pessoas à sua sorte. O
aplauso vibrante dos presentes mostrou que as
palavras do autarca de Querença exprimiam o
sentir de todos.
Foi um grande momento à
escala humana, que é impossível esquecer. Bem
hajam a todos os que no interior desse Algarve
mágico ajudam o seu povo a enfrentar tanta
adversidade e a zelar pela manutenção de saberes
e memórias que nos são vitais.

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